Ana Maria Gonçalves e os caminhos de Kehinde

Ana Maria Gonçalves e os caminhos de Kehinde

Em todas as linguagens artísticas, existem autores que mobilizam seus leitores a conhecerem os lugares onde se passaram suas vidas e obras. Tem gente que embarca para Paris para viver os passos cotidianos de Simone de Beauvoir ou segue para Cuba em busca dos mojitos de Ernest Hemingway. Há também os que tentam tornar palpáveis cartografias imaginárias, como os mundos de Oz e a Terra Média.

No Brasil, um autor que mobiliza pessoas em busca de ambientes, sabores e personagens até as terras baianas é Jorge Amado. Seus romances cheiram a suor, sexo e dendê, chamam a gente a viver aqueles dias densos de fartos pratos, prazer e cochilo. O livro de Amado que caiu nas mãos de Ana Maria Gonçalves não foi propriamente uma ficção, mas sim um roteiro afetivo de visitação, o “Bahia de Todos os Santos – Guia de Ruas e Mistérios de Salvador”.

Ao abrir o livro de Amado no prólogo, Ana Maria leu: “E quando a viola gemer nas mãos do seresteiro na rua trepidante da cidade agitada, não tenhas, moça, um minuto de indecisão. Atende ao chamado e vem. A Bahia te espera para sua festa cotidiana”. Era um convite e ela se encantou.

Assim que pôde, Ana Maria arrumou mudança e partiu para a Bahia, onde pesquisou documentos, percorreu ladeiras, sentiu sabores e – quiçá – amores. Foi lá que ela escreveu o romance de reparação histórica “Um Defeito de Cor”, um guia para a Bahia de Todos os Santos e outras religiões, um mapa de outro tempo que pode ser seguido hoje e que muda a forma como seu leitor caminha pelo Terreiro de Jesus e Corredor da Vitória, como pega um barco rumo a Itaparica ou um ônibus rumo a São Félix, levado pelas mãos de Kehinde.

Provocada por nós sobre a possibilidade de traçar um outro guia para a Bahia, Ana Maria respondeu: “Bem, já passou pela minha cabeça ‘atualizar’ aquele guia sim. Mas ele é bem mais complexo que parece, pois tece a história da cidade através das próprias relações sociais e afetivas de Jorge Amado, o que me falta. Isto, aliado à quantidade de assuntos sobre os quais tenho vontade de escrever, faz a ideia ficar pra trás na fila dos livros que quero escrever”.

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